quarta-feira 21 agosto 2019
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“Já passamos da época em que pessoas com deficiência eram isoladas da sociedade ou mortas”

“Já passamos da época em que pessoas com deficiência eram isoladas da sociedade ou mortas”

No Dia Mundial de Conscientização do Autismo, Andrea Werner reforça a importância das datas comemorativas para a inclusão. “Todos são diferentes em suas especificidades, mas iguais perante a lei. O direito de frequentar a escola, o playground, é de todas as crianças e adolescentes”.


Dia desses, estava respondendo a mensagens no meu inbox do Instagram e dei de cara com um pedido de uma coordenadora de escola infantil.

“Ontem, eu vivi uma situação tão desagradável na escola onde eu trabalho que só lembrei de você. Queria saber se você pode me ajudar. A mãe de uma criança veio pedir para eu trocar a filha dela de sala porque não quer a filha dela estude junto com uma criança que tem síndrome de Down”.

Pausa para respirar. Será que eu li certo? Releio a mensagem só para ter certeza, porque é para perder a fé na humanidade, esse tipo de história.

Mais tarde, compartilhei meu incômodo em um post. Os comentários – que surgiram aos montes – só serviram para confirmar que, sim, gente com esse tipo de insensibilidade existe aos montes.

Compartilho com vocês um resuminho dos “melhores” (ou seria “piores”?) comentários:

– Fomos impedidos por uma igreja de permanecer por lá com meu filho, Lucas, autista, com 10 anos. Uma pastora nos disse que autismo era uma maldição.

– Meu filho, autista leve, 7 anos, foi proibido pelo síndico de brincar no playground do prédio só com o irmão mais velho porque, segundo algumas mães, as filhas delas têm medo do comportamento dele e elas não são obrigadas a saber o que é autismo.

–  Meu sobrinho autista sofreu com um abaixo-assinado feito por pais e mães de outros alunos para ser “convidado a sair da escola”.

 Quando recebemos um diagnóstico de deficiência de um filho, sofremos duplamente. Em primeiro lugar, pelo filho que idealizamos, e que descobrimos, no supetão, que não existe. Em segundo lugar, porque sabemos que o mundo não acolhe bem o diferente. Em vários aspectos. A deficiência é só um deles.

Toda mãe quer que seu filho seja feliz e nós, que vivemos a maternidade atípica, não somos diferentes. Mas já começamos a perceber, desde cedo, como este caminho para a felicidade vai ser mais difícil de trilhar. Nunca vou me esquecer do dia em que uma mãe puxou seu filho de perto do meu, que só tinha 3 anos, em um playground. “Filho, fica aqui mais pertinho da mamãe”, disse ela, enquanto dirigia um olhar perturbador ao Theo, que brincava com a areia e fazia muito “iiiiiii”.

O caminho para a felicidade apresenta outro obstáculo na hora de matricular seu filho diferente na escola. Qualquer escola. Vagas somem misteriosamente quando a deficiência é mencionada. Escolas aceitam a matrícula por medo de represálias legais, mas, desde cedo, deixam claro que “a escola não pode oferecer o que a criança precisa”. E, sutilmente, vão mandando pistas para que os próprios pais decidam retirar o filho dali.

O mesmo caminho para a felicidade esbarra nos vídeos de youtubers famosos e até políticos que usam “retardado” e “autista” como xingamento. Como vou explicar ao meu filho que ele deve ter orgulho de quem é, se sua condição é usada para ofender outras pessoas?

E a felicidade parece ainda mais distante quando uma mãe descobre que todas as crianças da sala foram chamadas para um aniversário ou uma “festa do pijama”, menos o seu filho.

Hoje é comemorado o Dia Internacional sobre a Conscientização do Autismo. Este ano, já tivemos o Dia Mundial da síndrome de Down. Tivemos também o “Purple Day”, que levanta a conscientização mundial sobre a epilepsia. E por que precisamos destas datas?

Deficiências são parte da diversidade humana. Já passamos da época em que pessoas com deficiência eram mortas, ou institucionalizadas, ou viviam isoladas da sociedade. Pelo menos a gente espera que essa época tenha passado.

Algumas pessoas já nascem com alguma deficiência. Outras a adquirem ao longo da vida. Todas vão ter algum nível de deficiência na velhice.

Nestas datas tão significativas, vamos lembrar a importância da inclusão. Porque todos são diferentes em suas especificidades, mas iguais perante a lei. Portanto, o direito de frequentar a escola é de todas as crianças e adolescentes. O direito de brincar no playground também. E não é só da boca para fora: discriminação é crime inafiançável.

Então, mãe, se seu filho sofrer discriminação em qualquer lugar, faça um boletim de ocorrência. Acione o Ministério Público. Faça valer os direitos dele, que é cidadão.

E, agora, gostaria de dar uma palavrinha para você, que é mãe de uma criança com desenvolvimento típico: a inclusão de verdade não vai acontecer sem a sua parceria. Você deve estar se questionando sobre como ajudar – e eu vou te contar. Já perguntou na escola do seu filho se ela é inclusiva? Se há crianças com deficiência ali, convivendo com as outras crianças, aprendendo com elas e ensinando que diversidade é uma coisa bacana? Como você se posiciona em casos de injustiça e preconceito contra crianças com deficiência? Você se preocupa em educar o seu filho para respeitar a diversidade?

Agora, você sabe para que servem os “dias de conscientização” sobre a síndrome de down, o autismo, a epilepsia, as síndromes raras, e tantas outras diferenças. Servem para dizer “ei, essas pessoas existem, são cidadãs e têm direitos que, muitas vezes, estão sendo negados”. Servem, também, para te convidar a uma parceria essencial para o sucesso da inclusão. Nós, mães de crianças “diferentes”, estamos aqui estendendo a mão. Quem vai pegar?


Fonte: https://revistacrescer.globo.com/Colunistas/Andrea-Werner-Lagarta-Vira-Pupa/noticia/2019/04/ja-passamos-da-epoca-em-que-pessoas-com-deficiencia-eram-isoladas-da-sociedade-ou-mortas.html




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